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Notícias de 05/03 a 11/03/2009
 
Arrastão em prédio de SP termina com oito presos

Funcionário é peça-chave para segurança

 

 

 

 

Arrastão em prédio de SP termina com oito presos

LAURA CAPRIGLIONE
Folha de S.Paulo
Atualizado em 09/03/2009 às 09h26.

Era perto da meia-noite, quando o quarteirão normalmente calmo do Paraíso (zona sul de São Paulo) irrompeu em palmas e gritos. "Mataaaa." "Linchaaaa." "Vagabundoooos" "Filhos da...taaaaa." As palmas eram para a polícia, que naquele momento prendia oito homens de uma quadrilha especializada em assalto a prédios, pondo fim a uma hora de terror, com disparo de tiros e pânico de reféns, adrenalina no bairro.

Os assaltantes já haviam invadido um prédio na mesma quadra. Entraram na garagem em um Ford Eco Sport, na cola de um morador que chegava em casa de carro.

O bando iniciou o arrastão no prédio, mas foi surpreendido pela polícia, acionada por um morador que percebeu a movimentação anormal.

Em fuga, os oito ou nove homens (não se sabe o número exato) escalaram o muro dos fundos do prédio em que estavam e, assim, alcançaram os fundos de um outro edifício, o Panorama. Pularam de uma altura de 8 metros e correram para o apartamento do zelador, no andar térreo, onde renderam cinco pessoas, um adolescente de 15 anos entre eles.

A polícia apareceu em minutos e cercou a rua. "Nesse prédio branco aí!", "Mais para cima", "Nos fundos!" Os moradores nos prédios em volta passaram a orientar a polícia sobre onde estariam os fugitivos.

A seguir, houve vários disparos de arma de fogo (nenhuma rajada) e ouviu-se a voz forte do policial da Força Tática, dentro da área comum do prédio: "Se matar um (refém), morrem todos vocês."

Um helicóptero da PM, voando bem baixo, jogava jatos de luz sobre o cenário da ação. O restante da negociação não foi possível ouvir.

Do prédio bem defronte ao Panorama, dava para ver os reféns, incluindo o garoto, filho do zelador, com as mãos para cima, cercados pelos assaltantes.

Flashes estouravam de cada canto. Eram de máquinas de moradores encarapitados nas sacadas.

A rua congestionada tinha a essa altura algo como 35 carros de polícia GOE (Grupo de Operações Especiais da Polícia Civil), Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aquiar), Força Tática, entre outros.

O homem que parecia ser o líder do grupo, vestido de branco, aceitou a rendição. Todos os assaltantes colocados em um paredão lateral do prédio, e já um grito se ouviu: "Fuzilaaaaaa."

Os gritos de alívio, xingamentos e aplausos, entretanto, só foram escutados quando os oito homens em fila indiana, cabeças baixas, saíram do prédio escoltados, e entraram nos chiqueirinhos de três carros da PM.

Foi essa a senha para muitos moradores descerem de seus apartamentos, munidos de câmeras de vídeo e celulares.

"Eu estava assistindo o Big Brother quando tudo começou. Mas na rua estava muito melhor, isso sim é ação real, em 3D", comentava o rapaz, latinha de cerveja na mão, ao lado do carro da polícia em que um dos presos suava forte, embaçando os vidros: "Agora, para ele, vai virar 'Prison Break'", disse, referindo-se ao seriado americano de TV.

Um casal em traje de gala (ela de longo vaporoso azul), que voltava de uma festa e teve de deixar seu carro no quarteirão de cima, tentava passar por entre curiosos de bermudão e policiais que se cumprimentavam pela prisão.

Na alegria do bangue-bangue de final feliz, a única nota destoante foi a fuga de um ou dois assaltantes. "Tomara que sejam encontrados bem longe daqui, para a polícia fazer o trabalho completo", dizia uma vizinha, meia-dúzia de bem-casados nas mãos, que voltava de um casamento.

À 1h, o Paraíso voltou à calma. Os moradores puderam dormir.

 

 

Funcionário é peça-chave para segurança

Segundo delegado, condomínios repassam responsabilidade pela proteção para o porteiro, mas não valorizam profissional

Empresa de segurança privada paga salários de R$ 1.500 a R$ 2.000 para funcionários, que têm antecedentes verificados

DA REPORTAGEM LOCAL

Funcionários são a peça-chave tanto para evitar quanto para facilitar o roubo de condomínios, afirmam empresários de segurança, especialistas em violência e a própria polícia.
"Em 90% dos condomínios, quem cuida do acesso é o porteiro, eventualmente o zelador ou até o faxineiro", afirma o delegado Edison Santi, do Deic. De acordo com Santi, o porteiro, que era uma espécie de relações-públicas do condomínio, foi se tornando um encarregado da segurança -e sendo cobrado por isso.
Segundo o delegado, além de cobrar, é preciso prestigiar esses profissionais. "Quando ele barra [alguém] acaba sendo punido porque era parente de morador e demorou dez minutos para deixar entrar", diz.
"Como pagar um salário mínimo ou dois e exigir que o funcionário não converse, não tome café e fique em pé o dia todo? Quem zela por nós ganha muito mal; às vezes não ganha nem bom dia", diz o jornalista morador do edifício assaltado em Perdizes na segunda-feira.
"Muitos só vão ao médico quando começam a sentir algum tipo de dor", diz José Antônio Caetano, diretor comercial da Haganá, sobre a procura por segurança privada. A empresa fez uma proposta para cuidar do prédio em Perdizes e oferece guaritas blindadas e seguranças na calçada, cuja tarefa é abordar todos os moradores, visitantes e funcionários que quiserem entrar.
Na última quarta, enquanto o calor em São Paulo ultrapassava os 30C, dois seguranças vestindo ternos ficavam em pé sob o sol controlando a entrada de um condomínio na zona norte, um dos que sofreram arrastão neste ano. Segundo o diretor da empresa para a qual trabalham, o salário deles varia de R$ 1.500 a R$ 2.000 para uma jornada de 11 a 12 horas, com uma hora de intervalo. Antes de serem contratados, é feita uma investigação de sua vida; depois, passam por treinamento de cinco dias para conhecer os procedimentos.
"Quando entram na sua casa reviram o mundo material, mas com isso reviram o mundo interno. Quando chega a proposta da companhia de segurança, você se agarra nela com unhas e dentes, é a tábua de salvação. Mas o mundo interno você não consegue organizar sozinho, precisa do coletivo. O que se recomenda é resgatar a vida social", diz o psicólogo Sérgio Kodato, do Observatório de Violência da USP (Universidade de São Paulo) de Ribeirão Preto.
Melina Risso, diretora de desenvolvimento do Instituto Sou da Paz, conta que no prédio onde mora, vizinho do edifício assaltado em Perdizes, o debate sobre medidas de segurança já começou. "[Esses casos] começam a gerar paranoia e um círculo vicioso muito ruim. Quanto mais medo, mais você se tranca, menos você convive com os diferentes."
Para ela, é preciso pensar numa ação que articule o bairro, o quarteirão e a rua, que trabalhe em conjunto com a polícia e que faça com que os moradores também se responsabilizem pelo processo de segurança.